As paredes azuis. Não há como errar. No meio de todo aquele verde, do caminho cercado por tantas plantas de espécies que eu nunca vou saber diferenciar. Logo após a ponte bamba sobre o açude. Quando o cachorro vier correndo pra te acompanhar até lá. Não tem como errar. As paredes são azuis.
Além do cachorro, as hortênsias azuis também fazem parte da recepção. São azuis porque são plantadas no chão, não em vaso, me ensinou minha mãe quando eu ainda era pequena, no domingo de manhã, enquanto tomava café na janela da sala de jantar.
Foi lá que aprendi o que era uma sala de jantar. Não é cozinha, mas também não é sala. É só um espaço onde caibam os treze filhos ao redor da mesa, mesmo que nunca tenham morado lá todos ao mesmo tempo.
A janela da cozinha é como uma pintura. Por ela, além das hortênsias, também se veem as rosas, as margaridas, as camélias – minhas preferidas – os coqueiros, as bergamoteiras, os cachorros, os gatos, as galinhas. Até o parreiral de uvas, lá longe.
O leite tem um gosto diferente lá. O café da manhã é daqueles que só se encontra em casa de vó. E mesmo que sejam só nove horas da manhã, a polenta já está no fogão a lenha. Eu não me lembro bem do cheiro, mas lembro do piso de madeira polida e de como as paredes chacoalham se você correr. Não é bom correr, pode derrubar os santos da vó. Jogar bola dentro da sala também não é uma boa ideia, o que aprendemos da pior forma.
A vó iria te receber com um abraço e meia dúzia de palavras, numa mistura quase incompreensível de português e italiano. Talvez ela esteja esperando na porta, com o mate na mão. Talvez ela esteja voltando do paiol, com os braços carregados de lenha e a roupa cheia de farpas. Ela sabe que vai ouvir um xingão por estar fazendo esforço, mas vai te ignorar. Ela é dona de si e só faz o que bem entender.
O vô iria te encontrar na varanda, te cumprimentar com um sorriso tímido. Ele não fala muito, porque já não ouve muito. Mas é simpático e ama a sua cachorrinha, que provavelmente vai estar ganhando um carinho perto dos pés dele. Ou então ele te encontraria no caminho, com o seu boné verde, velho e desbotado, sob o chapéu de palha puído. Eu nunca entendi porque usar os dois ao mesmo tempo.
O caminho até lá não é muito diferente do caminho para a casa de qualquer vô do interior do Vale do Taquari. Tem uma estrada de terra. Bem longa. Tem muito verde, casas coloridas, chaminés que denunciam o fogão a lenha e pessoas que acenam pelo caminho. Tu não as conhece, mas sabe que moram na casinha logo atrás do morro ou na baixada depois da curva. Elas não te conhecem, mas sabe que tu é a neta do João e da Angélica, uma dos vinte e tantos, que vieram dos treze que nasceram e cresceram na casinha azul.
No caminho, também tem plátanos. Preste atenção nos plátanos, eles são importantes para chegar lá!
Mentira, não são. Eu só gosto muito deles, então preste atenção nos plátanos.
Mas as paredes, elas são azuis. Não tem como errar. Elas vão te receber com o boas-vindas que só se recebe em casa de vó. O cachorro também vai estar lá. Ele está velho agora, então talvez não te receba com a mesma energia. Ou talvez, infelizmente, já não seja mais o mesmo cachorro. Porque as flores da vó Angélica também já não são as mesmas que um dia ela plantou. E o antigo rádio do vô João, assim como eles, também não está mais lá. 1
Esse texto foi publicado pela primeira vez de forma impressa, na Coletânea VIII Escritos & Escritores, após ser selecionado no 8º Concurso Literário da Academia Literária do Vale do Taquari - Alivat, em novembro de 2023.


